John Jonathan Junior percebeu o parafuso solto pelo modo como a vibração chegava à ponta dos dedos.

    Estava no alto de uma escada de manutenção, com a lanterna presa entre o ombro e a mandíbula, quando o último trem da Linha Três deixou a plataforma. O motor elétrico se afastou pelo túnel e o piso continuou tremendo por alguns segundos. A estrutura metálica da placa que John segurava respondeu diferente: uma batida curta, fora do ritmo. Ele passou a mão pela junção até encontrar a arruela vibrando.

    Soltou um palavrão baixo e procurou a chave certa na bolsa.

    O parafuso ainda tinha rosca. John o apertou, testou a placa com dois puxões e desceu. Depois de quase sete horas carregando ferramentas, a alça da bolsa havia deixado uma faixa dolorida sobre o uniforme. Ele marcou a ordem como concluída no celular.

    Eram 23h16. Se ninguém inventasse uma emergência nos quarenta minutos seguintes, ainda pegaria o expresso das 23h46. Perder aquele trem significava esperar mais vinte e oito minutos pelo próximo e caminhar quatro quadras a mais na Zona Amarela 14, porque a linha noturna não parava perto de casa.

    John empurrou a escada até o armário de serviço. A estação continuava cheia. Funcionários de restaurantes ocupavam metade dos bancos com mochilas no colo. Perto dos elevadores, dois homens de macacão discutiam um jogo transmitido numa tela pequena, enquanto uma mulher com uniforme hospitalar dormia sentada sobre o próprio casaco.

    Do lado de fora dos painéis de vidro, chovia sobre Meridian. As luzes da avenida se desfaziam na água, e as vias elevadas formavam sombras largas entre as torres.

    Uma tela publicitária ocupava a parede sobre a Plataforma Dois. Atlas apareceu no meio de um viaduto destruído, com o uniforme branco ainda limpo. A imagem logo deu lugar ao anúncio de uma empresa de segurança privada. John reconheceu o logotipo e voltou ao cadeado. Nenhum plano daquela empresa atendia à Zona Amarela 14 sem uma taxa que sua mãe chamaria de assalto com contrato.

    — Moço.

    John se virou.

    Uma menina de talvez sete anos havia parado a poucos passos dele. O pai tentava equilibrar duas malas enquanto procurava alguma coisa no painel de partidas e, por isso, só percebeu a aproximação da filha quando ela apontou para o crachá preso ao uniforme de John.

    — Isso quer dizer que você não tem poder?

    — Sara, deixa o rapaz trabalhar.

    John baixou os olhos para o crachá. Além do nome e do número de funcionário, havia a autorização para áreas técnicas. Mais abaixo aparecia a classificação de Manifestação exigida para quem trabalhava na infraestrutura da estação: NULO.

    — Quer dizer — respondeu.

    A menina aproximou o rosto, procurando alguma ressalva em letras menores.

    — Nenhum mesmo?

    O pai chamou por ela outra vez, agora arrastando uma das malas na direção da escada rolante. John confirmou com a cabeça. Sara ainda abriu a boca, mas o homem apontou para o painel e avisou que perderiam o trem. Ela correu atrás dele sem se despedir. O pai lançou um pedido de desculpas por cima do ombro e continuou andando.

    John terminou de prender o cadeado.

    A pergunta já não incomodava como antes. Aos quatorze anos, qualquer dor de cabeça lhe parecera o começo de alguma coisa. Aos quinze, ainda havia outros atrasados na turma. Os exames continuaram por mais dois anos, até chegar aquele em que o médico virou a tela para ele e começou a explicar possibilidades profissionais para Nulos.

    Depois disso, até os parentes pararam de perguntar.

    A maioria da população também não possuía Manifestação. John sabia disso. Saber não mudava a forma como uma criança olhava para o crachá dele.

    O rádio preso à cintura chiou.

    — Jonathan, está na escuta?

    Era Miro, na central técnica.

    — Estou.

    — Passarela norte. Apoio três. O sensor voltou a variar.

    John olhou para a estrutura que ligava o bloco principal ao terminal elevado. A passarela atravessava quatro plataformas e recebia fluxo dos dois lados.

    — Quanto?

    Do rádio veio o ruído de teclas.

    — Dois vírgula oito acima da faixa. Caiu para dois vírgula quatro, voltou para dois vírgula oito… Agora está oscilando.

    — Algum trem pesado passou na Linha Um?

    — Já conferi.

    John esperou pelo restante.

    — Consegue olhar antes de sair? — completou Miro.

    Ele passou a alça da bolsa pelo ombro.

    — Já estou indo.

    Não adiantava lembrar a Miro que seu turno acabaria em pouco mais de meia hora. Se o sensor estivesse errado, perderia dez minutos. Se não estivesse, o próximo turno teria um problema maior.

    Subiu pela escada de serviço lateral. O ruído da estação mudou conforme ganhou altura. As conversas se misturaram aos anúncios e ao som dos trens até virarem um fundo contínuo.

    A passarela norte tinha sido reformada mais vezes do que John conseguia lembrar. Perfis novos de aço atravessavam o concreto antigo. Alguns conduítes haviam sido presos por cima de suportes que deviam estar ali desde a inauguração da estação. Junto à entrada, uma placa registrava a última inspeção completa: cinco meses antes.

    O sensor estava fixado à lateral de uma coluna quadrada, protegido por um painel cinza. John abriu a tampa e apoiou a lanterna na borda. Começou pela fiação. Estava seca. Puxou o conector com dois dedos e não encontrou folga. Os contatos também não mostravam sinais de aquecimento.

    Consultou a leitura.

    2,6.

    O número permaneceu estável por alguns segundos e subiu para 2,9.

    — Miro, o sensor parece bom.

    — Parece bom ou está bom?

    John se abaixou para conferir a fixação inferior.

    — Não achei defeito.

    — Certo. Vou registrar como “John não achou”. Se cair, o relatório é seu.

    Um trem entrou na estação abaixo antes que John respondesse. Ele deixou o rádio preso ao ombro e encostou a palma na coluna.

    O primeiro tremor veio como esperava. As rodas tocaram as emendas dos trilhos num ritmo conhecido, e a vibração atravessou o concreto antes de perder força. Havia outra pulsação escondida sob ela. Mais funda, sem acompanhar o movimento do trem.

    John manteve a mão no concreto.

    — Repete a leitura.

    Miro demorou alguns segundos.

    — Três vírgula dois. O trem acabou de entrar, então deve ser—

    — Espera.

    A superfície da coluna estava fria e um pouco úmida. John pressionou melhor a palma, procurando a segunda vibração sob o ruído dos trilhos. Ela cessou antes que conseguisse localizar a origem.

    Abaixou-se junto à base. Uma fissura antiga havia sido delimitada com tinta amarela durante a última inspeção, e a abertura ainda respeitava a marca. John passou o dedo por ela e depois verificou a junção entre o reforço de aço e o concreto.

    Sem deslocamento. Nada solto.

    — Reduz o fluxo pela passarela até o primeiro turno — pediu.

    — Para quanto?

    John observou as pessoas cruzando acima das plataformas. Devia haver umas quarenta naquele momento.

    — Fecha uma das entradas.

    Miro soltou o ar perto demais do microfone.

    — Vou convencer a operação de que “não achei defeito” justifica fechar metade da passagem.

    — A leitura justifica.

    — Agora você resolve argumentar.

    Um impacto grave atravessou a estação.

    John levantou a cabeça. O som vinha de longe, seco demais para ser uma explosão. Alguma estrutura recebera força suficiente para fazer a vibração chegar até ali. As conversas abaixo diminuíram por alguns segundos.

    — Isso chegou aí? — perguntou Miro.

    — Chegou.

    O segundo impacto veio antes que John tirasse a mão da coluna. A vibração entrou pela base, subiu até sua palma e fez a tampa do painel bater contra a dobradiça. Algumas pessoas pararam no meio da passarela. Um homem se aproximou do guarda-corpo para observar o acesso oeste.

    Os alto-falantes reagiram:

    Atenção. Ocorrência de segurança no setor oeste. Evite os acessos C e D e aguarde a orientação dos funcionários.

    As portas de contenção começaram a descer nas plataformas inferiores.

    — Miro?

    Várias vozes se sobrepunham na central. Miro respondeu a alguém antes de voltar ao rádio.

    — Invasão no setor oeste. A segurança pediu bloqueio total.

    John fechou o painel.

    — E a passarela?

    — A operação ainda não respondeu.

    O terceiro impacto sacudiu o piso sob as botas de John e cortou a transmissão. Gritos surgiram nas plataformas inferiores.

    Ele foi até o guarda-corpo. Pessoas saíam correndo da passagem que levava ao setor oeste, enquanto dois funcionários tentavam desviá-las para as escadas do lado oposto. Uma porta de contenção havia parado pela metade. Um homem passou por baixo dela; outros o imitaram, apesar dos gritos de uma funcionária.

    Um corredor se abriu no meio da fuga. Por ele avançava um homem enorme.

    John precisou de alguns segundos para reconhecê-lo.

    Garrick Dren, o Abalador, aparecera várias vezes nos noticiários nas últimas semanas. Nas gravações, quase sempre estava coberto de poeira, com a cabeça raspada e as mãos envolvidas em faixas. Ao vivo parecia maior. Havia fissuras na pele de seus punhos. Sangue escorria entre os dedos.

    Garrick alcançou uma barreira de concreto que separava o acesso público da área de carga. Em vez de saltá-la, apoiou a mão esquerda no topo e golpeou a lateral com a direita.

    A barreira não se rompeu no ponto atingido. As rachaduras viajaram pelo concreto e apareceram metros adiante, onde a peça se unia a uma coluna. A junção se abriu. O bloco inteiro tombou de lado com um estrondo.

    Garrick recolheu a mão. Dois dedos haviam entortado. Ele os apertou contra o peito por alguns segundos e continuou.

    — Miro, fecha a passarela.

    — Já mandei—

    — Tem gente vindo pelo oeste.

    John seguiu para a entrada mais próxima. Um grupo avançava no sentido contrário, fugindo do setor atacado. A sinalização suspensa mandava seguir para leste, mas parte das pessoas tentava descer pela primeira escada que encontrava. Uma mulher segurou o braço de John.

    — É por aqui?

    — Continua para leste. Próxima escada.

    Ela puxou o adolescente que estava consigo e sumiu no fluxo.

    John encostou o cartão no leitor do painel manual. A tela demorou a responder.

    ACESSO RESTRITO — COMANDO EM PROCESSAMENTO.

    Uma vibração atravessou o piso antes que o comando fosse concluído. A tela se apagou. As luzes da passarela piscaram e o alarme estrutural começou a tocar em pulsos rápidos.

    John conhecia aquele som dos treinamentos. Nunca o ouvira fora deles.

    As pessoas também perceberam a diferença. Um homem começou a correr. Duas mulheres foram atrás, e o restante do fluxo se apertou diante da escada leste.

    — Não corre! — gritou um funcionário mais adiante. — Tem espaço. Continua andando!

    Ninguém parou para ouvi-lo.

    John procurou o apoio três. A fissura delimitada pela tinta havia crescido alguns milímetros.

    Ele voltou à coluna e encostou a mão. Já não precisava esperar a passagem de um trem. A vibração vinha de algum ponto distante e se espalhava pela estrutura. Frequência baixa. Intervalos irregulares. Transmissão pelo conjunto oeste.

    Garrick atingira alguma coisa conectada à passarela.

    — Miro, tira todo mundo daqui.

    — Estamos tentando. A ANE foi acionada.

    — Quanto tempo?

    Miro respondeu a outra pessoa antes de voltar.

    — A equipe está a caminho.

    — Eu perguntei quanto tempo.

    — Eu ouvi.

    John esperou. A central continuou cheia de vozes, mas Miro não acrescentou nada.

    Abriu com uma chave pequena o compartimento de emergência do painel e encontrou a alavanca de liberação mecânica.

    — Se eu abrir a saída leste, consegue travar a entrada oeste?

    Nada veio do rádio. John puxou a alavanca até a metade e tornou a chamar:

    — Miro?

    — Estou tentando. A entrada oeste sumiu do sistema. Não tenho câmera, não tenho trava, não tenho—

    Outra voz o interrompeu ao fundo.

    — Faz o que der — disse John.

    A alavanca resistiu antes de ceder com um solavanco. Um funcionário do outro lado percebeu o destravamento e abriu as duas folhas, aliviando o gargalo. Os passageiros começaram a descer com mais rapidez.

    Outro impacto veio do setor de carga. O aço deformou sob o piso, produzindo um ruído baixo e comprido.

    John se voltou para o apoio três. A junção inferior havia se deslocado. Parte da carga agora passava pelos reforços laterais. O da esquerda ainda trabalhava; o da direita estava cedendo. Uma abertura estreita surgira entre duas chapas que deveriam permanecer encostadas.

    — Saiam da passarela!

    Algumas pessoas olharam para ele. Um senhor continuou caminhando devagar, talvez sem compreender. Perto do guarda-corpo, uma jovem havia parado para filmar o tumulto.

    John apontou para a escada.

    — Desce. Agora.

    A jovem viu a abertura entre as chapas e guardou o celular.

    O piso inclinou alguns centímetros. Uma mala de rodinhas começou a deslizar sozinha e bateu na perna de um passageiro. A pouca organização que restava desapareceu.

    Um homem de mochila empurrou John contra o guarda-corpo. Ele recuperou o equilíbrio e tentou manter espaço diante da escada, mas dois passageiros se chocaram na entrada. Uma mulher caiu. Quando tentou levantar, alguém pisou na barra de sua saia e a puxou de volta para o chão.

    John agarrou o braço de um homem que tentava passar por cima dos outros.

    — Para de empurrar!

    — Isso vai cair!

    — Então destrava a escada.

    O homem se soltou e desceu. John levantou a mulher. Outro passageiro apanhou a bolsa dela e abriu caminho sem esperar agradecimento.

    Restavam pouco mais de vinte pessoas quando um estalo partiu do apoio três. Dois parafusos se soltaram da chapa lateral. Um deles ricocheteou no piso e desapareceu pela abertura junto ao guarda-corpo.

    John sentiu a boca secar.

    — Miro, o apoio três está cedendo.

    O rádio devolveu estática.

    — Repete.

    — A junção abriu. Preciso bloquear—

    A transmissão morreu. As luzes se apagaram por meio segundo e voltaram mais fracas.

    John verificou os dois lados. Passageiros ainda chegavam pelo oeste. A saída leste permanecia aberta, mas congestionada. No centro da passarela, uma menina de mochila vermelha girava em torno de si mesma, chorando e chamando pelo pai.

    Do outro lado da escada, um homem tentava subir contra o fluxo. Um funcionário o segurava pela cintura.

    — Minha filha está lá!

    A menina deu dois passos na direção dele. Nesse momento, a passarela afundou quase vinte centímetros.

    As pessoas gritaram. A criança caiu de joelhos e escorregou pela inclinação.

    John correu. Abaixou-se e agarrou a alça da mochila antes que ela alcançasse a lateral.

    — Segura em mim.

    Ela se prendeu ao uniforme dele.

    O ruído sob o piso piorou. Viga principal. Deformação na ligação inferior. Sobrecarga migrando para o lado leste. John conhecia os sinais por inspeções e treinamentos, mas nunca estivera sobre a estrutura enquanto eles aconteciam.

    Tentou puxar a menina para a saída. O piso tornou a se mover, e uma placa do forro caiu à frente dos dois. Pó e pedaços de isolamento atingiram seu cabelo. John protegeu a cabeça da criança com o braço e recuou.

    Uma dor aguda surgiu atrás de seus olhos. Ele levou a mão à testa, procurando algum corte, mas a sensação vinha de dentro.

    A estação mudou.

    A coluna diante dele continuava sendo concreto, e a passarela ainda estava inclinada. Havia gente correndo. Os alarmes permaneciam altos demais. Sobre tudo isso, porém, traços verdes percorriam as vigas e se dobravam nas junções.

    John piscou.

    Os traços continuaram ali.

    Parte deles atravessava a matéria. O peso das pessoas descia por linhas que se comprimiam a cada passo. A vibração do setor oeste chegava por outro caminho e encontrava a região já danificada. John conseguia acompanhar o movimento por alguns metros antes que a dor atrás de seus olhos piorasse.

    A menina falava com ele, mas as palavras se perdiam no alarme. Quando John tocou o nariz, encontrou sangue nos dedos.

    — Senhor?

    — Fica perto de mim.

    Tentou andar e quase caiu. Apoiou a mão no piso.

    A percepção se intensificou de uma vez. A tensão da viga subiu pelo braço como uma cãibra profunda. Junção inferior aberta. Reforço direito falhando. O esquerdo ainda preso por quatro fixações, talvez três; John não conseguia distinguir.

    Tirou a mão do piso. As linhas enfraqueceram.

    A viga estalou outra vez.

    Havia um padrão se repetindo nas partes que continuavam resistentes. Os traços verdes fechavam-se ao redor dos pontos de tensão e desapareciam quando alcançavam algo já rompido. A geometria mudava depressa, mas John conseguia perceber onde uma linha deveria encontrar a seguinte.

    Não sabia o que era aquilo. Também não tinha tempo para decidir se estava vendo algo real.

    O padrão não oferecia conserto. Trabalhava apenas com o que restava.

    Sustentar era a palavra mais próxima.

    John levou a menina até uma coluna.

    — Fica aqui.

    — Meu pai…

    — Eu vou levar você. Não sai.

    Abriu a bolsa de ferramentas com os dedos trêmulos e encontrou um marcador industrial. Arrastou-se até a placa metálica do apoio três e tentou reproduzir o padrão. A primeira linha saiu torta. Ele completou o desenho, mas nada mudou.

    O piso cedeu mais um pouco.

    John olhou para a marca e depois para a junção aberta. Estava tentando imaginar a chapa inteira, encaixada como aparecia nos manuais de inspeção. Aquela peça já não existia daquele jeito.

    Riscou o desenho e começou novamente.

    Dessa vez acompanhou as linhas que atravessavam o reforço ainda preso. Pressionou a palma esquerda contra a chapa para não perder a percepção. O contato trouxe de volta a dor atrás dos olhos, junto com uma pressão que se espalhou até o ombro.

    Completou o último traço pensando apenas nas pessoas que ainda estavam na passarela.

    A marca acendeu.

    A luz verde percorreu o desenho e entrou na chapa. A dor atravessou o braço de John com tanta força que seus dedos se fecharam sobre o marcador. O ombro se contraiu. Durante alguns segundos, ele deixou de sentir a mão esquerda.

    A passarela continuou quebrada. O piso permaneceu inclinado, e a fissura no concreto não diminuiu. Mesmo assim, o movimento parou.

    A carga do apoio três encontrou resistência nos reforços ainda conectados. A vibração se espalhou pela estrutura em vez de continuar forçando a junção aberta. A chapa tremia sob a palma de John, fazendo seus dentes baterem.

    Seu braço cedeu por um instante. A luz oscilou, e o piso afundou mais alguns milímetros.

    John apoiou parte do peso sobre a mão.

    — Tira eles daqui!

    O funcionário perto da escada viu a menina e subiu dois degraus.

    — Manda ela vir!

    John puxou a criança pelo braço.

    — Vai até ele. Devagar.

    Ela deu um passo e parou quando o piso estalou.

    — Não consigo.

    A dor já alcançava o peito de John. O sangue de seu nariz escorria até a boca.

    — Olha para ele — pediu. — Só continua olhando para ele.

    O funcionário estendeu a mão.

    — Vem. Estou aqui.

    A menina avançou.

    Dois passageiros passaram por John. Um deles sustentava um senhor que mancava. Perto da saída oeste, uma mulher ajudava outra pessoa a se levantar. Ninguém parecia compreender por que a passarela deixara de cair, e John não teria conseguido explicar se perguntassem.

    A menina alcançou a escada. O pai a agarrou antes que descesse o último degrau.

    — Últimos! — gritou o funcionário.

    Ainda havia cinco pessoas. Duas passaram quase juntas. O homem que arrastava a perna esquerda demorou mais e precisou ser puxado no começo da escada. Quando ele alcançou o outro lado, a passarela estava vazia.

    Celulares permaneciam erguidos nas plataformas inferiores. Uma passageira filmava a estrutura. Outro aparelho estava apontado diretamente para o apoio três.

    A luz era visível.

    — Pode soltar! — gritou o funcionário.

    John tentou tirar a mão da chapa. A marca resistiu.

    Ele puxou o braço outra vez, e uma dor cortante atravessou seu antebraço. A luz aumentou por um instante e começou a falhar. Na terceira tentativa, a ligação se rompeu.

    John caiu de costas.

    A passarela voltou a se mover. A viga principal desceu com um estrondo, e o apoio três rachou de cima a baixo. Uma seção do piso afundou em direção à linha inferior, arrastando John pela superfície inclinada até seu quadril bater contra o guarda-corpo.

    A mão esquerda encontrou uma barra. O restante do corpo passou pelo vão.

    Ele ficou pendurado acima da plataforma, com uma perna presa entre dois suportes. Seus dedos escorregavam no metal molhado.

    Alguém gritou para que não se mexesse.

    John apertou a barra e ficou onde estava.

    A mão ardia. O ombro suportava quase todo o peso, embora parecesse prestes a sair do lugar. No antebraço, uma faixa avermelhada acompanhava parte do desenho feito na chapa.

    A marca ainda emitia um brilho fraco. Aos poucos, apagou. As linhas espalhadas pela estação desapareceram junto com ela.

    Outro golpe sacudiu o setor de carga. John virou a cabeça e conseguiu ver Garrick entre duas colunas. O Abalador retirava alguma coisa de um compartimento aberto. A distância e os destroços impediam a identificação do objeto.

    A mão direita de Garrick pendia num ângulo ruim. Ele carregou o que havia encontrado com o braço esquerdo, atravessou uma porta de serviço e sumiu.

    Dois agentes de emergência chegaram por baixo da passarela. Um deles prendeu uma linha de segurança ao guarda-corpo e subiu pela estrutura lateral até John.

    — Consegue sentir a perna?

    John moveu o pé preso.

    — Isso é um sim? — perguntou o agente.

    — É.

    — Então para de mexer.

    Foram necessários vários minutos para retirá-lo dali. Quando o colocaram numa maca, as sirenes já enchiam a avenida.

    A equipe levou John até uma área de triagem improvisada na plataforma. Ele tentou permanecer em pé, mas um paramédico apontou para a maca sem discutir. John sentou-se. Imobilizaram seu ombro e colocaram gaze sob seu nariz. Uma bolsa fria foi pressionada contra o quadril dolorido.

    Um agente da ANE aproximou-se com um tablet.

    — John Jonathan Junior?

    Ele confirmou.

    — Você trabalha na manutenção desta estação?

    John mostrou o crachá. O agente conferiu o nome, registrou o número funcional e parou na classificação de Manifestação. Não comentou.

    — Estava na passarela quando o apoio rompeu?

    — Estava.

    O agente escreveu alguma coisa no tablet.

    — De onde veio o primeiro impacto?

    John indicou o setor oeste.

    — Dali.

    — “Dali” é o acesso de carga, a plataforma ou a via de serviço?

    — Acesso de carga. Não vi o ponto exato.

    O agente registrou a correção.

    — Quantos impactos antes do alarme estrutural?

    John tentou reconstruir a sequência.

    — Dois. Talvez três.

    A mão do agente parou sobre a tela.

    — Dois ou três?

    — O terceiro veio junto com o alarme. Não sei qual aconteceu primeiro.

    O homem anotou sem comentar. Depois ergueu o tablet na direção da passarela quebrada.

    — E o apoio três?

    — A junção inferior abriu. A carga passou para os reforços laterais.

    — Você viu isso acontecer?

    — Eu estava com a mão na coluna.

    O agente olhou para ele pela primeira vez desde o início do depoimento.

    — Isso não responde.

    John mexeu os dedos da mão direita, sentindo a graxa seca sob as unhas.

    — Eu senti a vibração mudar. Quando olhei, a chapa já estava afastando.

    O agente registrou a resposta.

    — Certo. Depois continuamos.

    Não perguntou por que a passarela parara de cair. Talvez ainda não tivesse visto a gravação.

    Um paramédico se aproximou e retirou a bolsa fria do quadril de John para examinar sua mão esquerda.

    — Abre.

    John obedeceu. A palma estava vermelha, com uma queimadura irregular junto à base dos dedos.

    O paramédico segurou seu pulso e virou a mão para a luz.

    — Cabo energizado?

    — Não.

    — Algum metal quente?

    — A passarela estava caindo.

    O paramédico pressionou com cuidado a pele próxima da queimadura.

    — Não foi isso que perguntei.

    John sentiu a ardência subir pelo antebraço.

    — Não sei.

    — Melhor. Consegue sentir isso?

    O homem tocou a ponta de seu indicador.

    — Consigo.

    — E isso?

    John não respondeu de imediato. O toque no dedo mínimo parecia distante, abafado.

    O paramédico repetiu a pressão.

    — John?

    — Quase nada.

    A expressão do homem mudou. Ele apoiou a mão de John sobre uma compressa e chamou outro profissional com um gesto.

    Foi então que as pessoas perto da entrada começaram a abrir caminho.

    Cael Ordan atravessou a fita de isolamento acompanhado por dois agentes da ANE. John o reconheceu pelo uniforme antes de lembrar o nome civil. Vetor aparecia em propagandas da Vanguarda redirecionando destroços e desviando veículos de multidões. Ali, molhado pela chuva, parecia menos alto do que nas telas.

    Também chegara depois que a passarela havia caído.

    — Continua olhando para mim — ordenou o paramédico.

    John voltou a atenção para ele.

    — Estou olhando.

    — Não estava. Mexe o dedo mínimo.

    John tentou. O dedo respondeu pouco.

    O paramédico segurou a mão dele aberta enquanto outra pessoa preparava o curativo. John acompanhou Cael pelo canto dos olhos.

    Dois técnicos conduziram Vetor até o apoio três. A chuva molhara parte do piso, e a poeira cobria a chapa, mas o desenho feito com o marcador permanecia visível. Havia uma linha escurecida ao redor de alguns traços.

    Um técnico apontou para a marca.

    Cael examinou a rachadura antes de se abaixar. Conferiu os reforços e os pontos de fixação. Em seguida, pediu um aparelho retangular e passou-o sobre o desenho.

    Uma luz vermelha acendeu no visor.

    O técnico pegou o aparelho, mudou a configuração e tentou novamente. A luz tornou a acender.

    Outro agente se aproximou com um tablet. A tela mostrava uma gravação da passarela iluminada de verde ao redor da mão de John.

    — Não fecha os dedos — avisou o paramédico.

    Cael deixou de observar a chapa. Virou-se para a plataforma e começou a examinar as pessoas reunidas na triagem.

    John baixou a mão para o colo.

    O paramédico segurou seu pulso e tornou a levantá-la.

    — Aberta.

    John obedeceu.

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